Abramos el cesto del sagrado saber
Que hablen nuestros ancestros
Dejemos sonar los cantos y rezos ancestrales
Que nos guíen por los caminos de La paz
E La compresíon entre los hombres

10 Fevereiro 2012

A PALAVRA GUARANI


Os pajés guarani dizem que o ser humano é, em sua origem, uma palavra sonhada. Quando chega a hora de dar a luz, o Verdadeiro Pai e a Verdadeira Mãe das palavras-alma dizem pra a que está por nascer: “Vá à terra. Eu farei que minha palavra circule por teus ossos e que tu lembres de mim no teu ser erguido”. Por um lado, esta palavra fundamenta a convicção guarani de que os seres humanos se constituem de uma porção divina e divinizadora, que mantém o ser humano na posição vertical. Ela é representada no nome ITUPARERA. Por outro lado, essa palavra integra os humanos ao cosmos e marca neles a sua condição de seres dependentes, representado no seu nome “selvagem”, nome do mato, HERAKA’AGUY. É digno de nota que a palavra não é recebida pronta, completa. Ela é um impulso inicial que deve ser desenvolvido ao longo da vida, por meio da dedicação e do esforço pessoais.

Mas esta tarefa de desenvolver a palavra divina em si e desenvolver-se nela coexiste com a tendência de descuido com a palavra divina. Então, o ser humano se divide, fica encurvado. Sobrevêm confusão, enfermidade, tristeza, inimizade, etc. Bifurca-se a palavra. De modo que a vida é marcada pela inestabilidade. De um lado, o otimismo de erguer-se como alguém por cujos ossos flui a Palavra, de crer poder adquirir-se grandeza de coração (PY’A GUASU), de plenificar-se na Palavra (ÑE’E AGYUJE), de alcançar a Palavra sem Mal (ÑE’E MARANE’Y). De outro, o pessimismo decorrente da ignorância, da ira e do ato de ofender.

Assim, na antropologia guarani, a Palavra é, por um lado, um numem, a alma, o próprio tornar-se pessoa. Por outro lado, ela é sua própria língua, o guarani.

A experiência com o português se impõe para muitos indígenas no âmbito da palavra lida e escrita. O Guarani domina no âmbito do falar e do escutar. Dos intelectuais da ciência guarani experimenta-se esse falar e escutar a palavra como ÑE’EENDU, enquanto que o ver a palavra como ÑE’EECHA, que, por sua vez, originam duas formas distintas de perceber, desenvolver e administrar a palavra. De modo que podem distinguir-se dois tipos de lideranças no âmbito da palavra. As OHENDUVA são as que alcançaram sua ciência por intermédio de outras pessoas (reconhecidas colmo ÑE’ENGATU: de boa palavra), seja ouvindo delas cantos, rezas, histórias ou mesmo as experiências do povo. As OHECHAVA são aquelas lideranças que fizeram uma experiência direta com a Palavra, contemplando-a num ato místico ou sendo inspiradas por ela, em sonhos.

Segundo a liderança intelectual guarani, é a maior ou menor predisposição e esforço para “ouvir” e “ver” a que permite à pessoa desenvolver-se na Palavra, que no fundo é desenvolver-se como pessoa. Via de regra, embora haja uma preferência teórica pelo “ver” como caminho para alcançar a Palavra e a maturidade, são raras as pessoas que se “esforçam” por alcançar “belas e boas palavras” por essa via. A maioria situa essa forma de conhecer no passado. Entende que esse caminho não é mais acessível, seja porque o meio ambiente – tão diferente do tradicional – o dificulta, seja porque os costumes adquiridos impedem que as pessoas desenvolvam sensibilidade para a contemplação.

O interessante é que tanto o “ver” como o “ouvir” convergem no “dizer” e no “dizer-se”. Assim, nas comunidades guarani, ainda que o “ver” pareça ser uma experiência mais individual, a pessoa que vê a Palavra é mais quando a comunica, quando faz do seu “nosso”, OÑOÑE’E. Isto é mais do que apenas “dizer”, um falar a respeito de, da Palavra; é um “dizer-se”, um falar onde quem fala é afetado pela Palavra que fala.

A experiência guarani de “ver” e “ouvir” a Palavra convergem ritualmente no ato de caminhar. Assim, numa das principais cerimônias guarani, homens recitam horas e horas a Palavra ouvida e aprendida de memória, enquanto caminham em círculo, seguindo os passos de um líder. Durante o andar, cada integrante rememora sua história pessoal e comunitária, ativa a memória coletiva, entra nela e mistura as histórias de sua vida com a dos seus antepassados. O guia declara versos de episódios míticos e aproxima o grupo de sua origem, ROGUATAMO ROÑEMBOYPY. O grupo de homens visualiza a terra pequenina. Ela vai crescendo adornada por um mando de neblina. Seres divinos e seres protetores fazem nela morada. Há dificuldades no lugar. Os celebrantes se tentam abrir caminhos no meio delas. Eles cruzam as diversas plataformas superpostas do universo e chegam ritualmente à morada de Nosso Pai e Nossa Mãe – Ñanderu e Ñandecy. Estes os recepcionam e lhes confia a tarefa de cultivar o bom modo de ser, celebrar as festas e proferir boas palavras.

Há nos grupos guarani quem diga que Ñanderu deu a eles a maracá e aos não-indígenas o kuatia jehaira (papel para escrever). Assim teriam ele estabelecido a diferença básica entre esses grupos: o mundo sonoro e musical dos guarani e o mundo da escrita dos não-indígenas.

Baseado em texto de Graciela Chamorro.
Fonte: Chakaruna - Abya Yala Sem Fronteiras

QUECHITXO - Cantadores que Curam

As sociedades indígenas utilizam-se de diversos métodos que auxiliam na cura de doenças. Existem os pajés, que tratam de certas doenças através de transes espirituais; Há os que se utilizam de plantas medicinais, outros que enxergam as causas de alguns males através de sinais da Natureza, e hoje em dia existem muitos enfermeiros indígenas com conhecimento da medicina do homem branco. Entre os índios MARUBO existem canções que curam.

O povo Marubo vivem na bacia do rio Javari, no sudoeste do estado do Amazonas. Sua cerâmica está entre as mais sofisticadas produzidas no Brasil: e leve e em certas ocasiões decoradas com uma impressão em negativo. Depois que as peças são queimadas, as mulheres desenham elementos geométricos nas cerâmicas utilizando uma argila esbranquiçada, diferente daquela utilizada na construção da peça. As cerâmicas são então colocadas sobre um fogo brando que as deixa negras, com exceção dos desenhos feitos com a argila mais esbranquiçada que é retirada da peça após o esfriamento.

Entre os Marubo, os indivíduos especialistas em entoar os cantos que curam são chamados QUECHITXO.

Antes dos cantos, os quechitxo preparam-se tomando o chá da ayahuaska e inalando um tipo de rapé. Depois, colocam o doente deitado em uma rede e sentam-se em volta dele, em banquinhos. Então, cantam curvados, com a mão direita sobre o joelho esquerdo e a cabeça apoiada na mão esquerda. São canções longas, entoadas a qualquer hora do dia e da noite, com intervalos de descanso, enquanto durar o período de crise mais aguda da doença. Nem todos os índios que cantam junto ao doente são quechitxo, alguns cantam apenas como auxiliares destes especialistas.

Há ocasiões que os quechitxo cantam sobre a boca de uma panela com mingau de banana, que será depois tomado pelos doentes como remédio. Este mingau é ingerido também pelos demais membros da comunidade como prevenção contra certas doenças e até mesmo para evitar mordidas de cobras. Os índios Marubo explicam que quando os quechitxo cantam, aproximam-se os espíritos REWEPEI, ONISRÃCO e SROMA.

O espírito Rewepei vai atrás da alma do doente e tenta convencê-la a permanecer no corpo. Os Marubo acreditam que seus pajés possuem uma taboca de guardar rapé dentro da garganta. A voz grave e volumosa surge quando esta taboca está destampada e a voz fina é sinal da taboca tampada. É também o espírito Rewepei quem coloca esta taboca na garganta dos pajés.

O espírito Onisrãco é o espírito da ayahuaska. Ele fica ao lado dos cantadores e canta junto com eles. Pode se transformar em diversos seres, como a onça, um pássaro, o fogo, o vento... O espírito Onisrãco é como o soldado que briga com a doença

Os espíritos Sroma são dois espíritos femininos que também lutam contra a doença. "Sroma" significa "seio" na língua dos Marubo.

Os cantos de cura dos índios Marubo dividem-se em três partes: (1º) como se forma o agente que originou a doença, (2º) como este agente atua no corpo da vítima e (3º) como este mal é combatido. Julio Cezar Melatti recolheu um canto contra mordida de cobras.

Ele começa pela narração de como surgiu a cobra, a partir da cabeça de um sapo morto; dois pingos de
fogo formaram os olhos da cobra; os venenos de um outro sapo e o leite de uma taboca formaram o veneno da serpente. E, por fim, o frio da terra e o calor de um terceiro sapo foram colocados também dentro da cobra. A segunda parte do canto conta como a cobra se coloca no caminho da vítima e como o indígena que é mordido fica com o calor da cobra na cabeça e o frio da terra nos pés.

A terceira parte conta então como a cobra e seu veneno são combatidos. As duas Sroma e Onisrãco vêm cuidar da vítima. A cobra é espantada com fogo. As Sroma dão saúde à vítima; a saúde vai passando pelo corpo, tirando o peso do corpo, o escuro dos olhos, o veneno da cobra. A fumaça também espanta a cobra, jogando-a para fora do corpo da pessoa mordida. O vento da saúde leva a cobra por cima do mato. O cheiro doce da ayahuaska passa por dentro da cabeça do paciente, tirando a dor. A saúde desce para a barriga, curando. O frio da água, o frio da pedra, o frio da terra, o frio do pau, o frio da ayahuaska, entram no corpo da vítima; quando o frio da cobra vai embora; o espírito da ayahuaska (Onisrãco) corre atrás dela com o terçado, cortando-a. Ele tira do corpo da vítima o veneno, o dente, o pelo da cobra.

No cântico ainda se citam outros elementos que vêm socorrer o paciente: o azedo, o sangue da árvore, o sangue da ayahuaska. Convém notar que no cântico os efeitos da mordida da cobra são confundidos com a própria cobra ou com partes do corpo dela.

Baseado em texto de Julio Cezar Melatti
Boletim da Iandé, nº 24
Fonte: Chakaruna

A Dança do Sol


As tribos nômades das grandes planícies da Amérida do Norte tem uma sociedade menos complexa que a dos agricultores e edificadores do Mississipi, cuja civilização era, aparentemente, influenciada pelas culturas da América Central, embora prestassem atenção as estações e ciclos naturais.

Poucas tribos, como a Skidi Pawnee, apesar de manter tradições elaboradas relacionadas às estrelas e cerimônias temporais de acordo com o movimento sazonal das constelações, parecem ter se interessado menos pelos solstícios. A maior parte das tribos, do Texas ao Canadá, do Mississipi às Montanhas Rochosas, particularmente a Nação Sioux, participam de uma cerimônia comum - a DANÇA DO SOL, tradicionalmente comemorada no período da lua cheia mais próxima do solstício de verão. Nesta ocasião, as pessoas acampam em círculos ao redor de uma árvore de algodão - a coluna do Sol - e constróem um pavilhão circular, o Pavilhão da Dança do Sol, com 28 colunas. A coluna central representa WAKAN-TANKA, o centro de todas as coisas. A entrada é orientada para o leste, na direção do nascer do Sol no equinócio. A cerimônia completa demora dezesseis dias: oito de preparação, quatro de realização e quatro de abstinência. Trata-se de um período de renovação, cura, purificação e oração. O propósito que têm ao realizar a Dança do Sol é a renovação de seu povo e de seu mundo. O período em que se realiza o rito, na metade do verão, quando o Sol está mais alato no céu e os dias são mais longos, é muito importante.

Thomas Mails, pastor luterano, que escreveu muito sobre as tradições espirituais dos nativos norte-americanos, descreve o ponto alto dessa cerimônia:

"Quando a Dança do Sol é realizada corretamente, no último dia e algumas vezes por outros dias, cada um daqueles homens é perfurado por dois espetos de madeira (algumas vezes, garras de águia) colocados sob a pele do tórax. Então, esteas espetos ssão presos a uma corda resistente e a outra ponta desta corta é amarrada na Coluna do Sol. Os homens, em um círculo em volta da Coluna do Sol, vão para frente quatro vezess, rezando e tocando a coluna, e depois jogam-se para trás com força, até que os espetos se quebrem ou saiam da pele. Um método alternativo é colocar dois espetos sob a pele da parte superior da omplata. Estes espetos são, então, amarrados às cabeças de grandes búfalos por tiras de couro. Os animais são arrastados ao redor do círculo até que o peso deles solte ou quebre os espetos."

É difícil para nós entendermos a importância cerimonial da dor e do auto-sacrifício no contexto dessas culturas nativas. Europeus e norte-americanos tendem a negar ou evitar o sofrimento e a morte a todo custo. No entanto, para os índios, estes são fatores essenciais da roda da vida. Não hás vida sem sacrifício, dor e morte. A Dança do Sol é uma oportunidadae de agradecimento e renovação, e o sacrifício da carne reafirma este profundo comprometimento.

Os indios Witchita, do Kansas, construíam suas vilas ao redor do Círculo do Conselho, que consistia de uma colina central rodeada por uma vala em forma elíptica. O arqueólogo Waldo Wedel, do Instituto Smithsonian, investigou três desses círculos localizados em Rice County, em 1967, e descobriu que são equivalentes: estão distantes um do outro cerca de 1,5 km e os traçados de ligação de um ao outro estão alinhados com o nascer do sol no solstício de verão e com o pôr-do-sol no solstício de inverno. Wedel notou, também, que um dos círculos, chamado Hayes, tem o eixo maior voltado para a direção do nascer do sol no solstício de verão. O eixo do outro círculo, chamado Tobias, foi posicionado na direçeão do pôr-do-sol no solstício de verão.

Mais distante, na direção oeste, ao longo da face oriental das cadeias rochosass, estendendo-se do norte do Colorado ao Canadá, localizam-se o restante de 50 círculos de pedras, conhecidos como Roda de Cura. Cada um deles é composto por pequenas rochas e está centralizado em uma pilha de rochas. sa maior parte das rodas são radiadas, e, em muitos casos, os raios são orientados de acordo com posicionamentos astronômicos. O círuclo mais bem estudado até agora foi o Bighorn Medicine, localizado na montanha Medicine, perto de Sheridan, em Wyoming, que incorpora o nascente e o poente no solstício de verão e também dois alinhamentos estrelares. O círculo Fort Smith Medicine localiza-se na Reserva Crow Indian, ao sul de Montana, cujo raio mais longo aponta na direçaõ do nascer do sol no solstício de verão. Já a roda chamada Moose Mountain Medicine, localizada em Saskatchewan, assinala o mesmo evento celestial que a roda Bighorn. Aroda Bighorn Medicine tem 28 raios, o mesmo número de colunas do tradicional pavilhão da Dança do Sol.

É difícil precisar a data da construção dessas rodas de cura, bem como quem foram seus construtores ou para que eram usadas. No entanto, parece que estão relacionadas aos rito sazonais como a Dança do Sol, na qual se reuniam tribos de diferentes lugares para vários dias de celebração, cerimônias e orações dirigidas ao Sol e aos Espíritos.

Baseado no texto de Richard Heinberg

Guarani Mbya

Neste verão de 2012 visitamos a aldeia Guarani Yynn Moroti Wherá – que significa Reflexo da Água Cristalina – localizada às margens da BR-101, no município de Biguaçu/SC.

O centro das atenções da comunidade indígena é a Casa de Reza (Opy), uma construção de aproximadamente 60 m² feita de barro e coberta de palhas, com apenas uma portinhola e sem janelas. Quando a porta é fechada uns parcos raios de luz entram no salão pelas brechas na parede da construção.

Neste local simples e acolhedor participamos de uma linda cerimônia onde se encontravam homens, mulheres e crianças guaranis e um pequeno grupo de juruás (homem branco para o guarani) comungando a bebida sagrada Ayahuasca ao redor do Fogo Central.


Gratidão á Nhanderu por nos levar por caminhos tão bonitos e nos oportunizar belos encontros... ao vovô Wherá Tupã (pajé da aldeia guarani de Biguaçu) por sua força e exemplo aos 102 anos de idade e sua esposa vovó Poty Djá, por seu amor e doçura. Á nossos parentes guaranis dedicamos esta postagem.

Ana Paula Andrade e Rafael Dusik


A casa de rezas



A escuridão que permeia o recinto sagrado é quebrada, nas noites de rituais, pelos pavios fumegantes dos lampiões. O chão batido, poeirento, apresenta ao centro uma escultura horizontal em barro, como se fizesse parte, brotasse do próprio chão. São os cabelos da Mãe Terra, ornamentado pelo Pajé com símbolos semelhantes aos encontrados no sítio arqueológico do Costão do Santinho. Os símbolos indecifráveis até mesmo para alguns guaranis da tribo reforçam o misticismo do ambiente. Uma haste de madeira divide os cabelos da Mãe Terra ao meio. Nas noites de culto, a haste separa homens e mulheres. No espaço onde seria o cérebro da Mãe Terra uma fogueira é acesa.


No canto oposto à porta encontra-se uma espécie de altar onde, à primeira vista, o que mais chama a atenção é a escultura de uma águia, posta na parte mais alta, é como se fosse a guardiã da Casa de Reza e que logo de cara intimida o visitante por sua expressão. Ela representa a visão e por isso ocupa o ponto mais alto. Mas olhando com cuidado pode-se distinguir instrumentos musicais, adereços e cachimbos. Nota-se também garrafas vazias e colchões velhos, o que parece um altar, na realidade é um simples depósito. Tão bonito e organizado leva o visitante a pensar que é um altar. Não, na casa de reza não tem altar, o recinto em si é um altar. Nesse momento, Karaí Popygua, o índio que mostra o santuário, pega um cachimbo em forma de beija-flor e revela: “A sabedoria Guarani está no cachimbo”.


O local é simples, mas o ensino e a doutrina são sofisticados. É impossível, para os guaranis, dissociar religião e educação – para eles, o espiritual e o intelectual são eixos essenciais para o desenvolvimento do ser, e a Casa de Rezas é o lugar de onde emana a sabedoria.



A escola



A escola Wherá Tupã Poty Djá foi criada em 1998 e mantém turmas da primeira à oitava série. O nome foi dado em homenagem ao pajé, Wherá Tupã, e sua esposa, Poty Dja. Ela oferece educação diferenciada, com ênfase à revitalização do conhecimento e sabedoria Guarani e o registro de ações pedagógicas tendo como metodologia a pesquisa e conhecimentos tradicionais. Para que isso aconteça os membros mais velhos da comunidade participam de algumas aulas práticas na escola. Uma pequena fogueira é acesa no pátio e o aparelho de som toca músicas na língua Guarani. A fumaça da fogueira se mistura com a dos cachimbos e cigarros acesos pelos índios. “Fumar, para nós, tem um sentido religioso”, explica Djatchuka Ryapu – filha do pajé.

Um índio de um metro e meio, aproximadamente, e aparentando setenta anos está manuseando um rústico tear. Ao lado da esposa ele conversa baixinho, característica dos Guaranis, e detalha para os alunos cada movimento que faz com as mãos. O velho está usando fibra de bananeira para fazer roupas típicas. O nome dele é Wherá Tupã, o Pajé da tribo, e tem, na verdade 98 anos. Enquanto isso um olho tecnológico está atento a tudo. É uma filmadora de última geração que registra o que pode ser as ultimas aulas do casal. O cinegrafista é o adolescente Karaí Nhabovate Yvy Djei, de apenas 14 anos. Em poucos minutos ele descarregará as imagens em um dos computadores da escola e fará a edição do vídeo.

Até a terceira série todo aprendizado é na língua Guarani. A partir da quarta começam a aprender o português e as aulas passam a ser nos dois idiomas. As salas de aulas são arrumadas pelos próprios alunos e não seguem um padrão de organização. Varia de turma para turma e, muitas vezes, de um dia para o outro eles mudam a formação das cadeiras. As crianças costumam ir à escola acompanhadas pelos irmãos mais novos, que muitas vezes não estão em idade escolar. Na escola Guarani, todos são bem vindos. Até os animais domésticos são aceitos em sala de aula. O professor é autoridade máxima e os alunos não discutem com ele. Só intervêm quando são solicitados. Isabel Eiko Kodama é professora na comunidade e se orgulha: “é muito bom ensinar aqui. Eles são muito educados e respeitadores. Se tiver alguém falando alto, pode ter certeza, não é um Guarani”.

Hyral Karai Kadju, 38, é o cacique dos Guaranis de Biguaçú. Cursando o quinto semestre de Direito, na UNIVALE, ele é o chefe político da comunidade. Hyral diz que o projeto da escola é formar profissionais que possam desenvolver atividades dentro da própria aldeia. “Estamos trabalhando em cima de projetos de auto-sustentação”, esclarece o cacique. Com um rosto emaciado, olhos fundos, uma barbicha limitada ao queixo e o cabelo preso num rabo-de-cavalo Hyral fala baixinho. “Essa escola é uma conquista nossa. Antes nós tínhamos que estudar com os não índios e havia muito preconceito contra nós. Agora fica mais fácil preservar nossa cultura, educar nossas crianças. Com o código de processo civil nas mãos o cacique parece ostentar um escudo contra quem ousar desafiar sua tribo. “Estou estudando para defender os direitos do nosso povo”, salienta.




Escola e Casa de Reza se completam. O que falta em uma, tem na outra. Elas fazem parte da estrutura educacional da aldeia, no entanto, enquanto a escola funciona todos os dias úteis da semana, a Casa de Reza não obedece a uma composição pedagógico padrão. “Os rituais acontecem de acordo com a precisão do povo, não tem data marcada pra acontecer”, explica Wherá Tupã, o pajé. Eles têm início por volta das nove horas da noite e se estende até o amanhecer do dia seguinte. A escola não abre as portas nesse dia. O ritual funciona como uma espécie de atividade suplementar obrigatória. É difícil saber qual será o resultado de uma educação tão diferenciada. O impacto para as futuras gerações guaranis não pode ser medido, uma vez que a escola e sua pedagogia contam com apenas onze anos de existência. Uma coisa é certa: Para o povo Guarani de Biguaçu, preservar as tradições é sinônimo de se manter vivo.

Fonte: reportagem de Gilead Maurício
Imagens: Fotos de cerimônia guarani na Aldeia Yynn Moroti Wherá - Biguaçu/SC. 2012, por Gustavo Padrón.

"Povo Aymará" - Sete tipos de paz


De acordo com o povo Aymara (que vive na Bolívia e Peru),
existem sete tipos de paz.

O primeiro tipo de paz é para dentro de cada um de nós.
Com a saúde de nosso corpo, a clareza de nossa mente,
a satisfação com nosso trabalho,
a alegria com a pessoa que escolhemos para amar.
Sem paz consigo mesmo, não há Paz.

O segundo tipo é para cima,
paz com os espíritos de nossos antepassados,
com o Deus de cada um.
Sem paz com o mundo espiritual,
ninguém fica totalmente em Paz.

A terceira paz é para frente,
com o seu passado.
Diferentemente dos homens brancos ocidentais
que põem o passado para trás,
os Aymara o colocam para adiante,
por ser o visto, o vivido, o conhecido.
Quem tem remorsos, culpas, dívidas não pagas,
arrependimentos não pode alcançar a Paz.

A quarta paz é para trás,
com o futuro de cada um.
Pois quem teme o que virá,
se apavora com o que terá de enfrentar,
com a possibilidade de más notícias, não está em Paz.

O quinto tipo de paz é para o lado esquerdo, com os nossos familiares.
Desavenças domésticas, disputas, queixas, ranger de dentes
com a família e com amigos próximos impedem de se alcançar a Paz.

A sexta é para o lado direito, com nossos vizinhos.
Estar pacificado na própria casa e em desavença com a casa ao lado
traz impedimentos para a verdadeira Paz.

A sétima e última paz é para baixo,
com a terra em que você pisa e de onde tira o seu sustento.
Se você provoca a tempestade ou a seca, se o solo tremer você não terá a santa Paz.

09 Fevereiro 2012

Os Guaranis e o céu - astronomia indígena

Os indígenas são profundos conhecedores do seu ambiente, plantas e animais, nomeando as várias espécies. Os Guarani, por exemplo, associam as estações do ano e as fases da Lua com o clima, a fauna e a flora da região em que vivem. Para eles, cada elemento da Natureza tem um espírito protetor. As ervas medicinais são preparadas obedecendo a um calendário anual bem rigoroso.

Em 1758, na 10ª edição de seu livro “Systema Naturae”, o botânico e médico sueco Karl von Linné (1707-1778) classificou todos os seres vivos até então conhecidos com as noções de gênero e espécie. Ele incluiu 39 espécies (14 mamíferos, 15 aves, 2 répteis e 8 peixes) das 1.370 catalogadas pelo astrônomo alemão Georg Marcgrave (1610 -1644), considerado o primeiro naturalista a estudar a fauna brasileira. Linné considerou os índios Guarani como "primus verus systematicus", dando, assim, o devido crédito à contribuição intelectual desta etnia à ciência da sistemática ou taxonomia, por cuja criação ele é internacionalmente reconhecido.

Os Guarani, em virtude da longa prática de observação da Lua, conhecem e utilizam suas fases na caça, no plantio e no corte da madeira. Eles consideram que a melhor época para essas atividades é entre a lua cheia e a lua nova (lua minguando), pois entre a lua nova e a lua cheia (lua crescendo) os animais se tornam mais agitados devido ao aumento de luminosidade.

Certa noite de lua crescente estava observando as constelações com os Guarani na ilha da Cotinga, Paraná. De repente, um deles me disse que seria melhor observarmos quando não houvesse Lua. Rapidamente, com meu conhecimento ocidental, respondi que estava de acordo, pois o brilho da Lua ofuscava o brilho das estrelas, embora conseguíssemos enxergar bem a Via Láctea. Ao que ele retrucou dizendo que, na realidade, o que o incomodava era a quantidade de mosquitos, muito menor quando não há Lua. Nunca havia percebido essa relação, que de fato existe, entre as fases da lua e a incidência de mosquitos.

Os Guarani que atualmente habitam o litoral também conhecem a relação das fases da Lua com as marés. Além disso, associam a Lua e as marés às estações do ano (observação dos astros e dos ventos) para a pesca artesanal. Segundo eles, o camarão é mais pescado entre fevereiro e abril, na maré alta de lua cheia, enquanto a época do linguado é no inverno, nas marés de quadratura (lua crescente e lua minguante). Em geral, quando saem para pescar, seja no rio ou no mar, os Guarani já sabem quais as espécies de peixe mais abundantes, em função da época do ano e da fase da Lua.

Até o ritual do "batismo" (nimongarai ou nheemongarai, em guarani), em que as crianças recebem seu nome, depende de um calendário luni-solar e da orientação espacial: o plantio principal do milho (avaxi) ocorre, geralmente, na primeira lua minguante de agosto. Após a colheita do milho plantado nessa época é que realizam o “batismo” das crianças. Esse evento deve coincidir com a época dos "tempos novos", caracterizada pelos fortes temporais de verão, geralmente o mês de janeiro. O nome dado à criança guarani vem de uma das cinco regiões celestes: zênite, norte, sul, leste e oeste. Cada região possui nomes típicos, representando a origem das crianças.

A astronomia envolveu todos os aspectos da cultura indígena. O caráter prático dos seus conhecimentos pode ser reconhecido na organização social e em condutas cotidianas que eram orientadas por rituais cujas datas eram definidas pelas posições dos astros.

A comunidade científica conhece muito pouco da astronomia indígena e da sua relação com o ambiente, patrimônio que pode ser perdido em uma ou duas gerações pelo rápido processo de globalização, que tende a homogeneizar as culturas e assim perder as nuances da diversidade. Esse risco ocorre, também, pela falta de pesquisa de campo e pelas dificuldades em documentar, avaliar, validar, proteger e disseminar os conhecimentos astronômicos dos indígenas do Brasil. Atualmente, há um grande interesse internacional na proteção e conservação do conhecimento tradicional e de práticas ancestrais de indígenas e das comunidades locais, para a conservação da biodiversidade.

Para os Guarani o Sol é o principal regulador da vida na Terra e tem grande significado religioso. Todo o cotidiano deles está voltado para a busca da força espiritual do Sol. Os Guarani, por exemplo, nomeiam o Sol de KUARAY, na linguagem do cotidiano, e de NHAMANDU, na espiritual.

Os Guarani determinam o meio-dia solar, os pontos cardeais e as estações do ano utilizando o relógio solar vertical, ou gnômon, que na língua tupi antiga, por exemplo, chamava-se Cuaracyraangaba. Ele é constituído de uma haste cravada verticalmente em um terreno horizontal, da qual se observa a sombra projetada pelo Sol. Essa haste vertical aponta para o ponto mais alto do céu, chamado zênite. O relógio solar vertical foi utilizado também no Egito, China, Grécia e em diversas outras partes do mundo.

Na cosmogênese Guarani, Nhanderu (Nosso Pai) criou quatro deuses principais que o ajudaram na criação da Terra e de seus habitantes. O zênite é o próprio NHANDERU e os quatro pontos cardeais representam esses Deuses: o norte é JAKAIRA, deus da neblina vivificante e das brumas que abrandam o calor, origem dos bons ventos; o leste é KARAI, deus do fogo e do ruído do crepitar das chamas sagradas; no sul, NHAMANDU, deus do Sol e das palavras, representa a origem do tempo-espaço primordial; e no oeste, TUPÃ, é deus das águas, do mar e de suas extensões, das chuvas, dos relâmpagos e dos trovões.

O calendário guarani está ligado à trajetória aparente anual do Sol e é dividido em tempo novo (ara pyau) e tempo velho (ara ymã). Ara pyau é o período equivalente à primavera e verão ocidentais, sendo ara ymã o período equivalente ao outono e inverno.

O dia do início de cada estação do ano é obtido através da observação do nascer ou do pôr-do-sol, sempre de um mesmo lugar, por exemplo, da haste vertical. O Sol sempre nasce do lado leste e se põe do lado oeste. No entanto, somente nos dias do início da primavera e do outono, o Sol nasce exatamente no ponto cardeal Leste e se põe exatamente no ponto cardeal Oeste. Para um observador no Hemisfério Sul, em relação à linha leste-oeste, o nascer e o pôr-do-sol ocorrem um pouco mais para o norte no inverno e um pouco mais para o sul no verão. Utilizando rochas, por exemplo, para marcar essas direções, os tupis-guaranis materializavam os quatro pontos cardeais e as direções do nascer e do pôr-do-sol no início das estações do ano.

Para os tupis-guaranis, a Lua (Jaxi, em guarani), principal regente da vida marinha, é considerada do sexo masculino, o irmão mais novo do Sol. A primeira unidade de tempo utilizada pelos tupis-guaranis foi o dia, medido por dois nasceres consecutivos do Sol. Depois veio o mês (também chamado jaxi), determinado a partir de duas aparições consecutivas de uma mesma fase da Lua. Os tupis-guaranis consideravam essa fase como sendo o primeiro filete da Lua que aparecia do lado oeste, ao anoitecer, depois do dia da lua nova (jaxy pyau), dia em que a Lua não é visível por se encontrar muito próxima da direção do Sol.

Além de serem utilizadas como calendário mensal, as fases da Lua serviam para orientação geográfica, pois a Lua brilha por refletir a luz do Sol, ficando a sua parte iluminada no lado em que se encontra o Sol. Entre a lua nova e a lua cheia (jaxy guaxu) o hemisfério iluminado aponta para o lado oeste, enquanto entre a lua cheia e a lua nova, a indicação é do lado leste. As fases da Lua também permitiam obter as horas da noite: o primeiro filete, depois da lua nova, aparece ao anoitecer, do lado oeste, e desaparece minutos depois, a lua crescente (jaxy endy mbyte) aparece desde o anoitecer até meia-noite, a lua cheia do pôr-do-sol ao nascer-do-sol e a lua minguante (jaxy nhenpytu mbyte) fica visível da meia-noite ao amanhecer.

Segundo d'Abbeville, "os Tupinambá atribuem à Lua o fluxo e o refluxo do mar e distinguem as duas marés cheias que se verificam na lua cheia e na lua nova ou poucos dias depois". Assim, mesmo antes dos europeus, os Tupinambá já sabiam que perto dos dias de lua nova e de lua cheia as marés altas são mais altas e as marés baixas são mais reduzidas do que nos outros dias do mês. O conhecimento da periodicidade das marés antes dos europeus pode ser explicado em virtude de a relação entre as marés e as fases da Lua ser melhor observada entre os trópicos, região em que se localiza a maior parte do Brasil.

Baseado em texto de Germano Afonso

08 Fevereiro 2012

Sonhos e nomes

Há algum tempo atrás, o guarani Luís Werá me confidenciou que havia sonhado com a alma de seu filho: a alma havia aparecido em um sonho e sussurrado que seu nome também seria Werá. Segundo Luís, isto é um bom sinal, por que este nome é um nome "forte", indicando que o meninozinho chegará sem problemas até a fase adulta, sendo imune a doenças e feitiços. Entretanto, ele ainda aguardava com indisfarçada ansiedade a confirmação final do rezador, pois somente ele, o nhanderu’i, poderia referendar ou não o nome que seu filho lhe contou em sonho. Afinal, cabe a ele, o rezador da comunidade, profeta da palavra, a derradeira confirmação, que também lhe viria em forma de revelação.

Na concepção Guarani, o que determina o nome é justamente a região de onde vem a alma da criança, não sendo jamais uma decisão arbitrária dos pais. É a partir do "lugar de onde vem a alma" é que o nome será constituído. E, ao saber sua origem, que sempre é dada pelo próprio filho ou filha através de sonhos, os pais também saberão suas qualidades e características individuais. Cada região possui determinados aspectos, assim como seus moradores. A origem do nome permite prever um pouco do futuro desta criança que ainda sequer nasceu, bem como seus gostos, jeito de ser e possíveis caminhos a serem percorridos. O nome é, portanto, parte integrante da pessoa e se diz ery mo’ã a (aquele que mantem em pé o fluir da palavra).

Em sua grande maioria são nomes que remontam uma profunda religiosidade, relacionando-se quase sempre a idéia de luz, desde o brilho ao troar do relâmpago, que são elementos fundamentais na mística guarani. Como também os diversos instrumentos utilizados durante a reza, como o maracá e o tacuapy. Assim como é comum os cristãos nomearem suas crianças com referências bíblicas, como João ou José, as crianças guarani recebem no nome toda carga espiritual do seu povo. Um arcabouço cultural que é repetidamente internalizado entre todos membros do grupo – e, principalmente durante a infância. É de se destacar que, a força cultural destes povos, reside basicamente nessa socialização, na qual alternam-se experiências individuais e coletivas. Bartomeu Meliá afirma que toda a reconhecida persistência cultural guarani encontra-se justamente neste trato com o sagrado. Somente o rezador poderá definir, através de seu contato com Ñanderu, de onde vem a alma e, dessa forma, definir seu nome. Mas, não só é permitido, como é esperado, o pai se adiantar ao rezador e entrar em diálogo com a alma da criança. Entre os grupos Guarani a experiência religiosa não é privilégio apenas dos rezadores ou sacerdotes, mas permeia toda vivência comunitária em uma grande festa coletiva.

Ainda segundo os Guarani, nos tempos antigos, a revelação do nome dava-se por volta dos dois anos de idade, mas hoje em dia "tem alguns que não querem esperar mais e dão nome bem antes". Com o advento do contato e a relação com o poder estatal, surgiram certas modificações em relação ao trato do nome, como por exemplo, a necessidade sentida por alguns em receber um nome na língua do conquistador. Entretanto, apesar da poderosa pressão da cultura hegemônica, esta modificação tem um caráter superficial, pois todos continuam com seus nomes revelados, ou nomes "verdadeiros". A diferença acontece em relação à importância que se dá ao nome "verdadeiro" e ao nome em português. Os Guarani de Itariri relatam uma divertida história sobre este assunto, segundo contam, quando o cacique foi retirar a segunda via do documento de identidade de parte da comunidade, ele simplesmente esqueceu do sobrenome de várias famílias do grupo, e, rebatizou-os todos como "da Silva" sem muita hesitação. E ainda hoje isto é motivo de troça entre os guarani de Itariri, não havendo qualquer tipo de represália em relação ao cacique, que também dá boas risadas quando esta história é relembrada. Afinal, este nome não é o nome revelado e, por pertencer ao mundo não-índio, possui pouco significado para o portador, podendo ser alterado sem maiores traumas. Ao contrário do nome verdadeiro, este sim fundamental para quem o carrega. Em relação ao batismo cristão "os Guarani consideram absurdo o sacerdote católico perguntar aos pais da criança como se chamará seu filho”. Eles zombam do fato de o padre, que se considera superior ao pajé, sequer é capaz de saber determinar o nome certo da criança! Daí o menosprezo do Guarani ao batismo cristão e aos nomes portugueses.

Os Guarani dão tanta importância ao nome que lhes foi revelado, a ponto de, como último recurso em caso de doença de morte, o rezador rebatizar o doente através de rituais, a fim de que o mal não continue naquele corpo. Não é raro encontrarmos guarani que, ao saudá-lo pelo nome, ele finja não ouvir e faça questão de não atender. De imediato, outros nos avisam que o seu nome foi mudado, ele agora possui um novo e se voltará apenas a este. No antigo nome toda doenças e eventuais feitiços ficam aprisionados, é urgente esquecê-lo o mais breve possível, a fim de estes malefícios também desapareçam. O nome guarani "é um pedaço de seu portador, quase idêntico a ele, inseparável da pessoa. O Guarani não ‘se chama’ fulano de tal, mas ele ‘é’ este nome".

Entendendo a importância do nome para o percurso e socialização do Guarani, percebe-se que neste grupo existe uma outra lógica em relação ao trato com a criança, que é quem, na verdade, escolhe o nome, ou melhor, traz o nome. É como se esta já viesse pronta, com suas vocações e possibilidades de ação. Dependendo de sua origem, de seu lugar celeste, ela poderá ser um grande rezador ou uma grande liderança política, e é bom lembrar que entre os Guarani é muito comum as mulheres exercerem funções religiosas e, devido a isso, tornarem-se líderes de suas comunidades, como caso da Karaí Cunhã Catarina, rezadora da aldeia de Aracruz/ES, que até sua morte foi a principal líder deste grupo.

O fato de a criança escolher seu nome é também o fato da criança escolher seus caminhos, independente dos pais, que tem como função apenas facilitá-lo na medida do possível, pois este já foi traçado anteriormente. O principal objetivo dos adultos guarani é possibilitar a formação do que eles chamam de guarani eté, ou seja, um guarani de verdade. Uma pessoa que possua todas características de um bom homem ou uma boa mulher guarani, que entre outras, é ser religiosa e avessa à sedução das coisas do mundo não-indio. Nos primeiros anos, a grande preocupação dos pais é assegurar o crescimento da alma, pois a criança ainda está fraca e vulnerável. Nesse período é comum os pais adotarem a criação de animais domésticos como galinhas e cachorros, que servem de anteparo protetor a qualquer malefício de venha do mundo exterior, como doenças e feitiços, pois, os pais e os filhos ainda estão vulneráveis as maldades do mundo.

Como por exemplo, o acontecido na comunidade guarani de Brakuí em 1998, quando agentes de saúde municipais, preocupados com a quantidade de cachorros infectados com sarna e carrapatos, acharam por bem organizar uma aplicação geral de parasiticidas em todos animais da comunidade. O resultado foi tão bom, que em pouco tempo, a cachorrada restabeleceu-se em cães saudáveis. Entretanto, neste mesmo período, houve uma curiosa epidemia de gripe nas crianças da aldeia. De imediato, os mais velhos reuniram-se na opy guasu (asa de reza) e após horas de jeroky (oração), referendaram que, como os cachorros ficaram muito fortes e bem de saúde, estavam imunes a doenças e feitiços, os quais, resvalando nestes, iam de encontro aos membros mais fracos da família. A saúde dos animais domésticos, no caso, cães, tornaram vulneráveis as crianças. Pois, apesar da criança ser um uma "pessoa completa", ela inspira vários cuidados em seus primeiros anos de vida, devido a sua fragilidade perante a um mundo que é considerado ñeychyrõgui arauka i anguãema (terrível e imperfeito).

A preparação para assegurar a vida e alma da criança começa já durante a gravidez. A mulher nesse tempo devo abster-se de toda comida pesada (banha, sal, etc) e lhe está proibida a carne de um grande número de bichos do mato. (...) Assegurar o crescimento da alma da criança é a maior preocupação dos pais; são numerosas as ameaças contra os quais têm que se defender. Continuam as proibições alimentares. O pai deve se abster de trabalhos pesados. Deve sobretudo evitar comportamento violento. Arco e flecha ou arma de fogo não deve usar nem para caçar, mas pode pescar e colocar armadilhas. A criança mama quando quer, recebe o máximo de atenção, procura-se satisfazer suas necessidades. O período de lactência estende-se até os dois anos, ou às vezes mais. O desenvolvimento da alma, que em guarani é chamada ‘Palavra’, se considera completo, quando a criança começa a pronunciar suas primeiras palavras. É então quando o ‘vidente’, talvez vá descobrir o nome religioso da criança, isto é, o nome daquela alma-palavra estabelecido já antes do seu envio para se “assentar” no corpo da sua futura mãe.



Até os três anos, as crianças guarani são orientadas culturalmente no reko (costume) por todo o grupo social. Ë papel da sociedade como um todo a formação daquele indivíduo em um bom guarani, partilhando o seu dia-a-dia desde a interação do nascimento até a imersão completa na rotina cultural.

Após os primeiros anos, pequenos trabalhos, como buscar lenha ou cuidar dos irmãos menores, já se encontram no universo destas crianças, que os desenvolvem de acordo com suas capacidades físicas e sexualidade. Com o tempo, estarão acompanhando os pais em seus afazeres rotineiros, sendo que, cada vez mais, a divisão sexual do trabalho se fará patente. No caso das aldeias do litoral paulista e carioca, as meninas guarani ajudarão a mãe na confecção e venda de artesanato durante as feiras municipais ou mesmo nas margens de rodovias. Os meninos, quando um pouco maiores, acompanharão os adultos em suas incursões as aldeias próximas, irão às cidades vizinhas e, provavelmente, começarão a explorar o palmito nativo existente em suas áreas. Porém, em todos os casos, a iniciação religiosa começa imediatamente após o “assentamento da alma”, ou seja, o nascimento. É comum encontrarmos nas opy guasú (casa-de-reza), diversas mães rezando, dançando e embalando seus filhos recém-nascidos ao som dos cantos e do maracá. A iniciação à religiosidade guarani, é, certamente, a primeira socialização formal do grupo. Nesse sentido, não há limite de idade, talvez, devido à criança ser originária das regiões celestiais, ela esteja realmente muito mais próxima ao que entendemos como sagrado. Mesmo assim, existem entre os Guarani (em especial, junto aos Kaiowá, no Mato Grosso do Sul) certas práticas ritualizadas de iniciação dos jovens no mundo adulto, como o Kunumi pepy, momento no qual os jovens meninos recebem prescrições dos mais velhos (seus padrinhos) no sentido de "serem perfeitos" (imarangatuvarã) e preparam-se para perfuração do lábio, e a utilização do adorno labial denominado tembetá, sinal fundamental dos grupos Guarani. Esta marca é exclusiva dos meninos Guarani, cabendo as meninas entoar (junto com os demais adultos) os cânticos e as rezas específicas para que o rito ocorra com sucesso.

Na festa do Kunumi pepy, que pode durar vários dias, os padrinhos cuidam dos seus escolhidos e cantam seus deveres em relação aos jovens durante a festa de perfuração labial:

Kunumi ambojegua / Eu adorno o menino
Kunumi poty ambojegua / Adorno a flor do menino
Kunumi ambojegua / Eu adorno o menino
Kunumi ku’akuaha ambojegua / Adorno o cinto do menino
Kunumi ambojegua / Eu adorno o menino
Kunumi ñe’e ambojegua / Adorno a palavra do menino
Kunumi ambojegua / Eu adorno o menino
Kunumi jeropapa ambojegua / Adorno o relato da história do menino
Kunumi ambojegua / Eu adorno o menino
Kunumi aupeguáko ore / Nós somos os que cuidam da alma dos meninos
Kunumi(a) jasuka marane’y / Somos os que cuidam da essência
Aupeguáko ore / do jeito do bom proceder dos meninos
Kunumi aupeguáko ore / Nós somos os que cuidam da alma do menino
He’i Ñengaju / Assim diz Ñengaju
Kunumi mba’ekuaa marane’y / Somos os que cuidam do saber
Aupeguáko ore / do bom proceder dos meninos
Kunumi aupeguáko ore / Somos os que cuidam da alma dos meninos
He’i Ñengaju / Assim diz Ñengaju
Kunumi(a) jeguaka marane’y / Somos os que cuidam da diadema
Aupeguáko ore / do bom proceder dos meninos
Kunumi aupeguáko ore / Somos os que cuidam da alma dos meninos
He’i Ñengaju / Assim disse Ñengaju


Neste puraheí (canto) percebe-se toda cautela que se tem na preparação do jovem em sua entrada para o mundo dos homens, que não é qualquer mundo, mas o mundo dos homens guarani. É necessário cuidar da alma, adornar a história e ensinar o bom proceder, pois, somente com a sua plenitude, tanto religiosa como de sua origem (que se confundem em seus significados) é que será possível a continuidade do reko, que será possível a construção do guarani eté.

O rito de passagem das meninas para o mundo adulto acontece durante sua primeira menstruação, quando são recolhidas a casa dos pais e recebem todo o tipo de conselho relativo ao bom proceder. Nas palavras do guarani Teodoro Alves, líder da comunidade de Ocoy/PR: "a menina já está preparada para o mundo adulto após menstruar, é sinal de que já pode casar e constituir família, mas, para constituir família, ela deve ouvir seus parentes, ouvir seus conselhos, participar da religião, somente aí é que ela será uma mulher".

Sobre a importância desta imersão cultural, alguns rezadores Kaiowá afirmam que os suicídios que vem ocorrendo nas comunidades do Mato Grosso do Sul são, em parte, devido à má formação das crianças guarani, pois estas não estão "adornadas" conforme os antigos. Em conseqüência, elas enfraquecem, entristecem e morrem.

Ainda sobre a necessidade das crianças cresceram adornadas, Pa’i Paulito, um dos rezadores Kaiowá mais respeitados e principal responsável pelas últimas festas de Kunumi pepy no Mato Grosso do Sul, profetiza "é certo: as criaturas que não são adornadas, são como aipim bichado – não servem para nada”.

Entre nove a doze anos de idade, os meninos deixam a casa de seus pais e passam a morar na ‘casa de solteiros’; recebem alimentos que suas mães e irmãs lhes enviam, mas dormem sempre nessa casa. Espera-se que andem todos juntos, que dividam tudo entre si, que sejam recatados e que evitem o contato com as mulheres. Isto se prolonga por cinco ou seis anos durante os quais os meninos são formados, desenvolvendo as qualidades que nesta sociedade são prezados como típicas de um verdadeiro homem: resistência física, agilidade, destreza e contato constante com o Sagrado. Também é nessa época que aprende a confeccionar seus instrumentos de trabalho e de caça e seus ornamentos. As técnicas de caça, agricultura e pesca, bem como atividades como a dança, o canto são também intensamente desenvolvidas nesse período.

Assim como o filho de Luís Werá apresentou-se através de sonhos; o continnum destes grupos apresentam-se nas revelações de seus rezadores mais tradicionais, como raízes que se prestam a boas sementes.

Baseado em texto de Paulo Humberto Porto Borges
publicado no Caderno CEDES 56 – UNICAMP
Fonte: Chakaruna